A IA é só o começo: estamos entrando na 4ª Revolução Industrial

As grandes revoluções tecnológicas são o grande passo de avanço econômico para as economias. Mais do que simples flutuações no PIB ou consumo, de um ano para o outro, elas possibilitam novos “saltos” de qualidade em toda a dinâmica econômica.

Introduzem não somente mais uma tecnologia no processo produtivo: criam uma rede de possibilidades inteiramente novas na matriz econômica, envolvendo produção, consumo, transporte, logística, infraestrutura e energia.

As Revoluções Industriais: 1ª, 2ª e 3ª

1ª Revolução Industrial

Séculos XVIII-XIX

Inovações: criação da indústria, introdução de máquinas na produção com uso de carvão, desenvolvimento de trens e ferrovias.

Efeito: criação das fábricas, urbanização e aumento massivo da produção.

2ª Revolução Industrial

Séculos XIX-XX

Inovações: motor a combustão, eletricidade e telefonia, extração de petróleo.

Efeito: produção em larga escala, consolidação das grandes corporações, popularização dos carros e eletrodomésticos.

3ª Revolução Industrial

Século XX

Inovações: eletrônica, computação, internet, telecomunicações e energias renováveis.

Efeito: automação industrial, sistemas digitais, globalização.

Cada Revolução Industrial trouxe junto:

• Ganhos de produtividade

• Redução de custos

• Criação de novos segmentos na economia

• Reciclagem/substituição de setores obsoletos

A “Indústria 4.0”

A 4ª Revolução Industrial vem com várias frentes: Big Data, Computação em Nuvem (Cloud), Internet das Coisas (IoT), Robótica Avançada e, sobretudo, Inteligência Artificial (IA).

É um ecossistema inteiramente novo, que deve transbordar em toda a economia global e transformar completamente a dinâmica em todos os setores.

Principais pontos

▪ Big Data: Processamento de um volume massivo de dados, com capacidade muito superior às ferramentas tradicionais.

▪ Computação em Nuvem (Cloud): Ao invés de cada unidade depender de seus servidores físicos, com suas limitações, o armazenamento é concedido por empresas de porte maior, com maior capacidade e infraestrutura gigante.

▪ Internet das Coisas (IoT): Extensão da internet para o mundo físico. Objetos com sensores, atuadores e conectividade, Wi-Fi, Bluetooth, 5G, efetivando a interação entre o mundo digital e real.

▪ Robótica Avançada: robotização móvel, integrando sistemas, sensores e informações em protótipos físicos “quase-humanos”.

“The Big Trend”: Inteligência Artificial (IA)

A Inteligência Artificial certamente é a principal “trend” do momento atual. Difícil escutar algo que não envolva IA nos principais mercados, corporações, eventos e fóruns, podcasts entrevistando figuras consagradas.

Quando olhamos para o número de startups envolvendo IA, vemos que simplesmente explodiu. Estimativas apontam para um número próximo a 10.000 empresas norte-americanas criadas nos últimos anos, inteiramente focadas em IA. Quase 2/3 do crescimento da economia norte-americana envolve investimento em IA, de maneira direta ou indireta.

Apesar do “hype”, a tecnologia não é de hoje. Há mais de 3 décadas, modelos de Machine Learning vêm sendo desenvolvidos, passando por redes neurais e Deep Learning nos últimos 15 anos.

A explosão foi o surgimento dos Modelos de Linguagem atuais, no lançamento do ChatGPT, integrando compressão de textos (input), raciocínio básico e geração de resposta “inteligente” (output). Além de textos escritos, os novos modelos integram também elaborações mais complexas, imagens, vídeos e gráficos.

Hoje há outros modelos além do GPT: Gemini, Claude, Grok, Deepseek, MetaAI.

Como a IA deve revolucionar as nossas vidas?

De bate pronto, há uma drástica redução de tempo dedicado a tarefas operacionais e rotineiras, de tipo administrativo. Preenchimento de planilhas, digitação de documentos e e-mails, controle de estoque são os casos mais óbvios de substituição total. Atendimento ao cliente em demandas elementares, consulta de preço, agendamentos, perguntas frequentes, devem sofrer também.

Tarefas mais complexas, de cunho fortemente analítico, também devem sofrer. Programação, análise financeira, contabilidade, pesquisa documental e semelhantes, provavelmente não terão substituição total e sim redução drástica no número de profissionais, com aumento extremo da produtividade.

Trabalhos complexos com forte necessidade de julgamento humano, com elementos que ultrapassam os códigos dos modelos de IA, devem ser fortemente favorecidos. Há o ganho de escala e tempo, permanecendo ao profissional o discernimento final. É o caso da medicina, engenharia, magistrado e pesquisa científica.

Ofícios com forte demanda de criatividade, marketing estratégico, artes em geral, ou com alta necessidade de relacionamento humano, gestão empresarial, liderança, consultoria personalizada, devem permanecer imprescindíveis ao mesmo tempo que se beneficiam do avanço da IA.

Principais Incertezas

Um dos gargalos reais, que começamos a sentir hoje já, é o alto custo da infraestrutura e demanda energética.

▪ Por um lado, a construção de data-centers é um investimento bilionário, com necessidade de endividamento mesmo pelas empresas mais valiosas do mundo, Alphabet, Meta, SpaceX.

▪ Por outro, a forte capacidade computacional dos modelos atuais tem um consumo de energia extremamente elevado, o que deve impor barreiras reais ao desenvolvimento e uso da tecnologia.

▪ A nova “Economia dos Tokens” (“tokenomics”), com restrições no uso atual da capacidade dos modelos é reflexo direto desse problema.

Outro gargalo é econômico, considerando efeitos sobre emprego, produção e custos tecnológicos.

▪ A forte demanda por insumos tecnológicos, chips, memórias, pressiona o preço de toda a cadeia tecnológica/computacional, não apenas o custo da IA.

▪ É esperado também um efeito sobre o nível de emprego, mesmo que de curto prazo. A assimilação da massa de profissionais em outras áreas ou setores inaugurados pela IA também é incerta.

▪ Quanto à produção, não está claro se os ganhos de produtividade vão necessariamente compensar as perdas no emprego e os aumentos no custo dos insumos tecnológicos.

E existe também um gargalo financeiro

Com múltiplos na Lua, endividamento crescente das Big Techs e fluxo de caixa negativo em alguns casos, bem como a “torneira aberta” dos fundos globais de Venture Capital, há uma forte incerteza sobre o retorno real das IAs frente às expectativas atuais de lucro precificadas hoje na tecnologia.

Há um paralelo muito forte com a Bolha da Internet, entre 1995-2000, com um Crash financeiro, mesmo com avanço real da nova tecnologia por parte de empresas que se mostraram resilientes com o tempo, eBay, Amazon, Google.

O que esperar daqui para a frente?

A história das Revoluções Tecnológicas não é linear. É feita de criação e destruição, com promessas e incertezas.

O avanço é real, bem como os riscos e dificuldades. É razoável esperar avanços fortes em todas as frentes da nova Revolução, bem como crises que devem limpar todos os excessos, de especulação e expectativas irreais.