O setor varejista no Brasil foi historicamente visto como muito promissor. A extensão territorial e o grande mercado consumidor brasileiro sempre trouxeram um potencial imenso de crescimento para qualquer serviço de consumo no país.
Porém, os dados dos últimos anos põem em dúvida a resiliência do setor. A derrocada das ações da Magalu em 2021, o rombo das Americanas em 2023 e o pedido de RJ das Casas Bahia no último mês.
O que aconteceu?
A ascensão dos grandes players
Após o fim da 2ª Guerra, o mundo viveu um grande boom econômico, com avanço do emprego e renda nos processos de urbanização. Ao sair do campo e conseguir trabalho nas cidades, a demanda por toda uma nova rede de produtos surgiu, como eletrodomésticos, eletrônicos e móveis.
Lojas como Ponto Frio e Casas Bahia foram as precursoras deste movimento. Além da venda, integraram um braço financeiro às lojas, com concessão de crédito, via “carnês”, consórcios e cartões, a um público ainda desbancarizado, sem acesso a crédito pessoal pelos grandes bancos, como as classes C e D.
O resultado foi a explosão do número de lojas físicas ao redor do país e penetração na maior parte das cidades do Brasil.
A invasão internacional e a competição agressiva
Nos últimos anos, o varejo sofreu uma nova onda de transformação, puxada pela invasão das plataformas de fora, elevando a um novo patamar a competição do setor.
Amazon, Mercado Livre, Shopee, AliExpress e Shein são alguns dos grandes nomes que despontaram.
Agora não mais apenas um marketplace, as lojas virtuais criaram plataformas que se converteram em verdadeiros “super Apps”, integrando compras online com serviços bancários, streaming, delivery e outras inúmeras funcionalidades.
Além disso, outras inovações, como logística hiperfocada, com estrutura própria, como o Mercado Livre, e ofertas com preços diretos da fábrica, como Shopee e Shein, transformaram inteiramente o modus operandi do setor.
Os padrões de consumo também mudaram.
Se antes o foco era comprar uma geladeira ou uma máquina de lavar, parcelada em 24x, hoje o foco se tornou o consumo rápido impulsionado pela ação dos algoritmos.
Moda “ultrafast”, quinquilharias domésticas, acessórios de tecnologia, produtos de beleza e itens diversos inacessíveis em lojas físicas, devido a trends ultra-nichadas, passaram a ser as novas tendências entre consumidores com necessidades de satisfação imediata e sem planejamento de longo prazo.
A crise atual
De início, elementos que foram motores de crescimento em outras fases hoje viraram problemas.
O peso das lojas físicas
O investimento forte em lojas físicas, por exemplo, acabou ficando defasado com o avanço do e-commerce, pressionando custos e amassando as margens dos players antigos.
A obsessão pelo GMV
Outro problema foi a obsessão pelo GMV, volume bruto de mercadorias, buscando expandir a qualquer custo a rede de produtos ofertados, porém sem a estrutura “leve” (asset light) nos novos players.
O resultado foi aumento exponencial do volume transacionado, mas com custo muito alto e sem margem.
A pandemia e a mudança de hábitos
A pandemia de 2020-2022 foi outro grande fator de mudança. Com toda a demanda das grandes lojas em quarentena no hospital ou trancada em casa, o e-commerce explodiu e as lojas físicas continuaram pesando sobre os balanços.
Porém, com o fim da crise, a mudança de hábito permaneceu e a vinda dos novos players só acentuou o movimento tracionado pela crise sanitária.
O impacto dos juros
Por fim, a mudança no ciclo de juros também alterou fortemente a dinâmica. Entre 2017 e 2022, a Selic estacionou na casa de 1 dígito, chegando até mesmo ao patamar de 2% durante a pandemia. Isso favorecia tanto as empresas quanto os consumidores.
Com o novo ciclo de alta e o juro estacionado agora no patamar de 2 dígitos, as dívidas contraídas lá atrás passaram a sufocar cada vez mais um setor com custos altos e margens baixas.
Com a deterioração do crédito, nos últimos 18 meses, a torneira do “funding” foi fechando e o caixa das empresas chegando a um nível insustentável. O pedido de RJ das Casas Bahia no último mês é o exemplo mais claro da nova dinâmica no setor.
O que esperar daqui para frente no Varejo?
Inversão do capital imobilizado
Antes focado em lojas físicas, a parcela imobilizada do balanço deve ser realizada na estruturação de logística própria. Sem mais depender dos Correios, a aposta passa a ser em entrega rápida e frete de baixo custo.
Aumento de receitas com serviços paralelos
Ao invés de depender somente da venda de produtos, as plataformas passam a vender espaço publicitário de outras marcas, dado seu grande fluxo de acessos.
O uso do algoritmo torna mais nichado o marketing e vira uma nova fonte de receita para as empresas varejistas. Além disso, serviços alternativos, como bancários, streaming e social media, devem ganhar tração com o avanço das plataformas.
Integração de IA nos processos de venda
A incorporação de IA e Big Data aos processos internos da empresa traz consigo o forte potencial de hiper-customização do atendimento, além de ser preditivo de novas receitas ou tendências de consumo. O resultado deve ser uma receita mais estável para o setor.