Pela primeira vez em mais de dois anos, o dólar comercial voltou a ser negociado abaixo dos R$5,00. A cotação em torno de R$4,99 registrada nesta segunda-feira (13/4) é a ruptura de uma “barreira psicológica”. A pergunta que fica é: qual o mérito do Brasil?
Com o país sem mudanças estruturais, o risco Brasil segue inalterado: pressão inflacionária, risco fiscal, corrupção, incerteza eleitoral. O dólar mais fraco reflete antes um novo paradigma lá fora que uma melhora doméstica.
O que aconteceu com o dólar?
O enfraquecimento do dólar é resultado de uma combinação de fatores se movendo na mesma direção:
- Juro doméstico elevado: Com a Selic em 14,75% a.a. e a inflação dentro da banda, o Brasil opera com o 2º maior juro real do mundo (=9,5%, aprox.), atrás apenas da Turquia. O diferencial atrai recursos de fora (bancos, gestoras), independentemente de qualquer otimismo estrutural frente ao país aos olhos estrangeiros;
- Movimento “Sell América”: com temores de “bolha” nos investimentos em IA, além do aumento da incerteza após o Tarifaço e deterioração fiscal, há um movimento de saída de capital do país aos mercados historicamente descontados. É o rali nas bolsas emergentes;
- Efeito Trump: dentro de uma ótica de fortalecimento das exportações e aumento de competitividade das multinacionais do país, o Presidente Trump afirmou em várias ocasiões desejar uma moeda mais fraca. Foco: redução do déficit comercial entre EUA e o restante do mundo.
- Tensão no Irã: O Brasil é exportador de commodities essenciais, como petróleo, soja, minério e carnes. Com o encarecimento das cadeias globais de distribuição em cenário de tensão geopolítica, o Brasil se beneficia na balança comercial.
Risco fundamental: como se posicionar?
Capital estrangeiro é instável, vai e vem conforme as circunstâncias. Diante de uma deterioração doméstica, melhora no cenário EUA ou mesmo um evento global/crise que produza um movimento em direção à qualidade (“flight to quality”), a reversão pode acontecer em pouco tempo. Apesar das incertezas quanto aos EUA, ele segue sendo a principal economia do mundo e referência em “ativos de qualidade”.
Por isso, é importante aproveitar a janela de dólar mais fraco para envio de recursos para fora. Além da diversificação global e rentabilidade dos investimentos estrangeiros, é possível lucrar também com uma futura valorização cambial.
Conta XP Internacional
Ambiente global marcado por tensões geopolíticas e elevada incerteza dominaram as conversas com investidores estrangeiros. Mesmo com eventuais cessar-fogo, o processo de normalização deve ser longo, mantendo a oferta de petróleo restrita e preços projetados entre USD 80-90/barril.
A inflação figura como o principal risco estrutural de médio prazo para a economia global, pressionada pela militarização e deterioração fiscal, sustentando perspectiva dos juros de longo prazo mais altos. Os ativos norte-americanos (dólar e títulos públicos) vêm perdendo status de “porto seguro” em episódios de aversão ao risco, com probabilidade de depreciação adicional do dólar. Diante desse ruído, os gestores estão buscando alocação em emergentes e commodities.
Percepções sobre o Brasil

O Brasil vem sendo percebido como um vencedor relativo dentro de um cenário geopolítico volátil. As principais percepções externas sobre o país incluem:
• Vantagem Estrutural: Em um cenário de tensões e petróleo alto, o Brasil se favorece por ser um exportador líquido da commodity, o que tende a sustentar a balança comercial, fortalecer o real e mitigar pressões inflacionárias.
• Assimetria Positiva: Mesmo que os riscos globais recuem, o Brasil ainda seria beneficiado por um cenário de dólar mais fraco e maior apetite por mercados emergentes.
• Cautela Monetária: Surpresas de alta na inflação e um mercado de trabalho aquecido têm gerado debates sobre os próximos passos do Banco Central. É esperada uma postura cautelosa, com provável encerramento antecipado do ciclo de cortes da taxa Selic este ano, o que abriria espaço para novas reduções em 2027.
• Risco Fiscal: A política fiscal é considerada, de forma unânime, o principal risco doméstico. Há consenso de que a próxima administração enfrentará a necessidade urgente de controlar o crescimento das despesas, já que o espaço para aumento de receitas é limitado.
• Monitoramento Político: As eleições dominam o radar. Investidores demonstram incertezas tanto em relação ao compromisso com a disciplina fiscal num eventual quarto mandato de Lula, quanto à equipe e prioridades econômicas de um possível governo de Flávio Bolsonaro.
Visão Externa sobre outros Emergentes

1. México: A economia é vista com fundamentos sólidos e capacidade governamental para amortecer a inflação, como por meio de subsídios aos combustíveis. O Banco Central adota um tom de cautela moderada, mas o mercado avalia como provável uma pausa na taxa de juros em maio, deixando a porta aberta para um corte em junho.
2. Chile: O cenário é percebido como complexo devido a choques externos de energia que pressionam a inflação e enfraquecem o crescimento. O Banco Central mantém forte cautela e flexibilidade, evitado compromissos futuros explícitos, mas demonstrando prontidão para elevar os juros no curto prazo caso os riscos inflacionários se materializem.
3. Colômbia: O país enfrenta um cenário ambíguo onde o petróleo mais caro melhora a arrecadação, mas agrava os custos de importação e os riscos de inflação. Somado a isso, o aumento expressivo do salário-mínimo e uma política fiscal expansionista sustentam a decisão do Banco Central de manter um ciclo de aperto monetário agressivo, com previsão de novas altas de pelo menos 0,50 p.p. nos juros.

