O que aconteceu com o Crédito Privado no Brasil?

O Crédito Privado é uma modalidade de financiamento para grandes empresas, via mercado de capitais. Ao invés de contrair uma dívida convencional junto ao sistema bancário, a empresa emite títulos de dívida para investidores com uma remuneração pré-acordada. Em essência, é uma ótima via tanto para empresas que buscam novas fontes de funding quanto para investidores em busca de outras opções na renda fixa.

Evolução do Crédito Privado

Os investimentos em Crédito Privado tiveram historicamente pouca visibilidade no Brasil, reservados antes a investidores institucionais ou family offices. Com a desbancarização dos investimentos e ampliação de novas alternativas, o acesso ao mercado privado de crédito perdeu suas antigas restrições. O brasileiro descobriu o spread para além do CDI, o prêmio de risco da renda fixa sem FGC.

Os fundos de Renda Fixa ampliaram esse acesso, trazendo exposição aos ativos em opções com liquidez diária ou próxima (d+1, d+6, d+10). O mercado cresceu agressivamente. 

Onde começou o problema?

O primeiro susto veio com o caso Americanas, uma empresa avaliada com “AAA” (ótima qualidade) com exposição de fraude contábil e pedido de Recuperação Judicial. Todos os fundos sofreram. Com a alta prolongada da Selic pós-pandemia, o custo elevado de capital impactou fortemente as margens das empresas, com novos pedidos de Recuperação (Judicial ou Extrajudicial). Light, Braskem, Ambipar, Raízen, Pão-de-Açucar. Os títulos negociados sofreram fortes remarcações negativas, os fundos perderam rentabilidade.

Junto a isso, com o crescimento na procura pelos fundos, as empresas emissoras, percebendo o aumento na demanda por dívida privada, foram reduzindo as taxas das novas emissões, alongando prazo e reduzindo garantias. Como consequência, os spreads sofreram drástica compressão. Com os ativos incentivados (Debêntures, CRIs e CRAs), o movimento foi mais agressivo, com a explosão na demanda por isentos e sucessiva retração dos fundos.

Fundos com liquidez que antes remuneravam próximo a 120% CDI hoje sofrem para acompanhar o índice bancário. Com isso, houve uma onda de resgates fortes por parte do investidor. Somente em 2026, os fundos de Crédito Privado registraram mais de R$ 50 bilhões em solicitações de saída.

A Lição

Os eventos atuais na indústria de Crédito Privado trazem ao investidor brasileiro a lição do erro fundamental na “briga por taxa” dentro das alocações em Renda Fixa. 

Para além da busca por ganho em todos os ativos da carteira, sob a ilusão da rentabilidade histórica ou da taxa contratada, é cada vez mais necessária uma visão total da carteira do cliente, buscando não apenas ultrapassar os índices de mercado e sim olhar para o que é necessário frente aos objetivos pessoais de cada cliente, dentro de uma lógica mais profunda de planejamento. 

A consideração das oportunidades e riscos dentro um planejamento individual exige um olhar técnico e cauteloso, com visão completa de longo prazo sobre a vida e objetivos do cliente.